As canetas emagrecedoras imitam um hormônio que o nosso intestino produz quando a gente come — e que avisa o cérebro para parar de comer. Elas não são novidade: estão conosco desde 2016.
Elas não são tão novas quanto parecem
Embora muita gente só tenha ouvido falar das canetas emagrecedoras com o Mounjaro, elas estão conosco desde 2016 — quando foi lançado o Saxenda, à base de liraglutida, pela Novo Nordisk. Eu estava lá no lançamento, no Congresso Brasileiro de Nutrologia, na primeira fileira. Foi um ovo de Páscoa de novidade.
Antes disso, já se sabia que a liraglutida presente no Victoza — da mesma Novo Nordisk, usado para diabéticos — produzia em pessoas não diabéticas perda de peso. E ela já era usada off label, ou seja, fora da indicação da bula, para ajudar pacientes com obesidade e sobrepeso.
Numa conta grosseira, as canetas emagrecedoras estão conosco, aqui no Brasil, há mais de dez anos.
Como elas funcionam
Existe um hormônio que a gente produz no intestino quando come — ele avisa o nosso cérebro para parar de comer. Esse hormônio se chama GLP-1. O problema é que o GLP-1 produzido pelo nosso intestino dura poucos minutos no corpo.
As canetas emagrecedoras possuem substâncias que imitam a ação do GLP-1 — só que são modificadas para durarem muito mais tempo no organismo:
O efeito prático: a pessoa para no meio do prato
As canetas emagrecedoras estimulam a saciedade precoce. A pessoa começa a comer e para no meio do prato — não quer mais. E o intervalo entre as refeições também aumenta, porque ela fica mais cheia por mais tempo.
Como o corpo já vai parar de comer de qualquer forma, o intestino não precisa funcionar a todo vapor. Isso pode gerar, em algumas pessoas mais sensíveis, uma lentificação do movimento intestinal — e consequente constipação, que pode ser facilmente administrada com laxantes comuns de mercado.
Podem produzir também náuseas, porque a aversão ao alimento derivada da saciedade precoce pode se traduzir como náusea no corpo. Mas isso também é facilmente administrável com um antiemético comum de mercado — e tende a passar com o tempo. Na verdade, todos os efeitos adversos tendem a diminuir conforme o organismo vai se adaptando. E o efeito bom — a saciedade — esse perdura.
A novidade do Mounjaro
O Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida, traz uma inovação: além de simular a ação do GLP-1, ele também simula a ação de outro hormônio intestinal chamado GIP.
O GIP funciona como um facilitador da ação do GLP-1. Eu costumo brincar que o GIP levanta a bola para o GLP-1 cortar. Com os dois atuando juntos, a tirzepatida acaba sendo mais potente em termos de perda de peso do que a semaglutida.
Como as canetas produzem a perda de peso
Basicamente pela redução da ingestão alimentar. Mesmo aqueles pacientes que dizem "eu não como muito" — misteriosamente, quando fazem uso dos análogos do GLP-1, perdem peso de forma que não conseguiam antes.
Eu costumo brincar com os pacientes que, se ele tem 20 quilos a perder, é como se tivesse 20 mil reais de dívida no banco. Não adianta nada dizer para o gerente que gasta pouco — vai ter que gastar menos ainda, economizar e pagar a dívida. Ou arrumar um segundo emprego — que no caso é a atividade física.
A gordura é o estocador de energia. O músculo é o queimador. A dieta reduz o estoque. A musculação aumenta o queimador.
É por isso que o objetivo do processo de emagrecimento, como a gente conduz na nossa prática, é perder o máximo de gordura e o mínimo de músculo possível. Através da dieta, a gente diminui o que estoca energia. Através da atividade física — de preferência musculação — a gente aumenta o queimador do corpo, que é a massa muscular.