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Obesidade é uma doença? Entenda por que a resposta é sim

Não é falta de força de vontade. Não é desleixo. Obesidade tem CID, tem base biológica e tem tratamento. E chegou a hora de a gente falar sobre isso.

Escrito por Dr. Noé Alvarenga CRM-RJ 52 55524-5 · Médico Nutrólogo RQE 33056 Atualizado em julho de 2026

Lembra dos anos 90?

Quando eu me formei em medicina, nos anos 90, se dizia que depressão não era doença. Era frescura. Era escolha da pessoa. "Ela é fraca, não quer fazer nada com a vida dela." E então vinha o conselho clássico: vai pra Disney! Vai pra Disney que ninguém é depressivo na Disney.

Se você tem mais ou menos a minha faixa etária, você deve ter ouvido isso. Eu ouvi muito — inclusive de pacientes falando de outros pacientes.

O que acontecia na época? Não havia um grande arsenal de medicamentos para tratar depressão. E o ser humano é muito engraçado: quando é impotente para resolver uma coisa, tende a fazer pouco caso dela. A ciência não tinha resposta — então a culpa era do paciente.

Depois a ciência avançou. Surgiram antidepressivos de segunda e terceira geração. E hoje em dia, quem tem depressão tem uma doença facilmente tratável, reconhecida, levada a sério. Quem hoje em dia fala que depressão é frescura? Quase ninguém. Porque existem remédios, existem resultados, existe ciência.

Com a obesidade está acontecendo exatamente a mesma coisa.

A pandemia que abriu os olhos

A gente está vivendo, a partir da pandemia de COVID-19, um despertar — uma conscientização da obesidade enquanto doença. O que aconteceu? Na pandemia, pessoas que estavam acima do peso internavam e, de vez em quando, uma dessas morria. E as pessoas se perguntavam: "Mas por que? Ela estava tão bem."

A explicação era clara: o COVID-19 causava uma tempestade inflamatória dentro do organismo. Uma avalanche de inflamação que o corpo não conseguia controlar. E a pessoa com obesidade já vivia com uma inflamação crônica de baixo grau — causada pelo excesso de gordura visceral, a gordura que fica dentro do abdômen, ao redor dos órgãos. Quando as duas inflamações se somavam, o quadro escalava com muito mais velocidade, e essas pessoas morriam mais facilmente pela infecção.

Quando chegou a vacina, para surpresa de muitos, as pessoas com obesidade tinham prioridade na fila. Eram consideradas grupo de risco. Eu mesmo fiz muitos laudos para pacientes meus passarem na frente. Isso foi um grande divisor de águas. A sociedade começou a perceber que obesidade e sobrepeso não são inócuos, não são um mero capricho, não são fraqueza nem desleixo — mas sim uma doença que tem consequências sérias no organismo e deve ser tratada.

Tem CID. É oficial.

Se você procurar no livro do Código Internacional de Doenças — o CID —, obesidade está lá: CID E66. Tem código. Tem reconhecimento oficial. Não é opinião, não é tendência — é ciência.

E não só é doença. Como dizia um professor meu: obesidade é a mãe de todas as doenças.

Pensa nesse cenário, que eu vejo toda semana no consultório: um paciente chega. Ele é hipertenso. Tem pré-diabetes. O colesterol é alto. Os triglicerídeos são altos. O ácido úrico é alto. Tem gordura no fígado. Tem depressão. Toma um remédio para cada uma dessas condições. Às vezes cinco, seis remédios por dia.

Mas quando você propõe tratar a doença raiz — a obesidade, o desequilíbrio de composição corporal que motiva todas essas outras doenças —, ele se assusta. Por quê?

Porque ainda existe um preconceito enorme. A obesidade é tratada como algo invisível, que não deve ser falado. Como dizia Nelson Rodrigues: "Nada precisa ser dito se puder ser subentendido." A moral burguesa do silêncio. E esse silêncio custa saúde, custa anos de vida.

As canetinhas emagrecedoras e o novo arsenal

Coincidentemente — e eu digo coincidentemente porque não venham com teoria de conspiração —, desde 2016 o Brasil já tinha medicamentos para tratar a obesidade. Antes da pandemia, já existia uma classe de medicamentos pouco conhecida ainda dos médicos e da população: as chamadas canetinhas emagrecedoras, cujo nome técnico é agonistas de GLP-1.

Eu lembro quando comecei a prescrever essas canetas, lá por 2016 ou um pouco antes. Mostrava para os pacientes e eles me olhavam com ar de incredulidade: "Como assim uma caneta que emagrece, doutor?"

Aí eu brincava: "É fácil — você escreve o peso que quer ter e ela magicamente faz você chegar naquele peso." Depois eu abria a caneta, claro, mostrava a agulha, e a pessoa entendia. Mas muitas reagiam com surpresa diante da possibilidade de um medicamento injetável tratar a doença obesidade.

Quando houve a pandemia e as pessoas se conscientizaram de que obesidade era uma doença, começou o primeiro grande boom de pacientes que a gente viu. Pessoas que tinham engordado na pandemia, que perceberam que o excesso de peso era um risco de verdade, e que finalmente resolveram buscar apoio médico. Esse foi um divisor de águas também para a medicina da obesidade.

A nova era que estamos vivendo

Hoje, graças a Deus, estamos saindo dessa época tenebrosa. Entrando numa nova era dourada em que a obesidade e as consequências ruins para o organismo estão sendo conhecidas e discutidas. Em que cada vez mais pessoas estão buscando mudar hábitos de vida — alimentação, atividade física, sono — de forma a ter uma composição corporal mais saudável.

E os resultados que a gente vê no consultório são impressionantes. Pacientes que tratam a obesidade e veem o colesterol normalizar, a pressão cair, a glicose melhorar, o fígado gordo regredir — tudo isso sem precisar aumentar os outros remédios. Porque quando você trata a causa, as consequências melhoram junto.

Importante: tratar obesidade não é "apelar para remédio". É reconhecer que o excesso de gordura corporal é uma doença crônica — e que doença crônica merece tratamento sério, acompanhamento contínuo e suporte profissional.

Eu estou aqui, e toda a equipe da Nutrobarra está aqui, para poder ajudar você nessa sua jornada. Parabéns por ter tomado essa decisão. Te vejo na consulta.

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